A regra que a lei estabelece
A Lei do Inquilinato determina que o inquilino devolva o imóvel no estado em que o recebeu, salvo as deteriorações decorrentes do uso normal. Essa frase divide o mundo em dois:
- Desgaste natural (uso normal): o envelhecimento inevitável que qualquer imóvel sofre com o tempo, mesmo bem cuidado. Ninguém paga — é ônus do proprietário.
- Dano: o estrago que vai além do uso normal — por mau uso, acidente ou falta de cuidado. O inquilino paga, e pode ser descontado da caução.
O problema é que a lei não traz uma lista. A fronteira se define caso a caso — e é exatamente aí que entram os exemplos abaixo e a vistoria.
Item a item: o que é desgaste, o que é dano
| Item | Desgaste natural (ninguém paga) | Dano (inquilino paga) |
|---|---|---|
| Pintura | Cor desbotada, pequenas marcas de convivência após anos | Furos em excesso, rabiscos, manchas de gordura, cor alterada sem autorização |
| Piso | Micro-riscos de uso, brilho reduzido | Peças quebradas, queimaduras, riscos profundos de arrastar móveis |
| Torneiras e metais | Perda de brilho, vedações ressecadas pelo tempo | Quebra por força, entupimento por mau uso |
| Portas e fechaduras | Folga natural de dobradiças, desgaste do acabamento | Porta arrombada, fechadura forçada, batente lascado |
| Box e vidros | Vedação amarelada pelo tempo | Vidro trincado ou estilhaçado |
| Tomadas e interruptores | Amarelamento do plástico | Espelho quebrado, tomada derretida por sobrecarga |
| Armários | Corrediças com desgaste de uso | Portas soltas por excesso de peso, mofo por vazamento não comunicado |
Acabe com o "achismo" na devolução
Com vistoria de entrada e saída no Vistorize, a comparação é lado a lado, com fotos datadas de cada item. A discussão de desgaste vs dano se resolve com evidência, não com opinião. Comece grátis.
Fazer minha primeira vistoria →O fator tempo: o mesmo defeito muda de categoria
Um detalhe que poucos consideram: o tempo de locação muda a leitura. Uma pintura gasta após 5 anos de contrato é desgaste evidente. A mesma pintura gasta após 6 meses levanta suspeita de mau uso. Tribunais consideram a duração da locação ao julgar — e você deve considerar também.
Por isso a vistoria de entrada registra não só o estado, mas a data. O par estado-inicial + tempo-decorrido é o que permite avaliar com justiça o estado final.
Como a discussão se resolve na prática
- Com vistoria de entrada e saída: compara-se item a item. O que estava bom e voltou estragado além do uso normal é dano, cobrável. Rápido e objetivo.
- Sem vistoria: vira palavra contra palavra. O locador não prova que o dano não existia; o inquilino não prova que já existia. Resultado comum: caução judicializada, tempo e dinheiro perdidos pros dois.
Perguntas frequentes
Furo de quadro na parede é desgaste natural ou dano?
Poucos furos discretos, de uso residencial normal, tendem a ser aceitos como uso regular — o bom senso e o contrato pesam aqui. Furos em grande quantidade, buchas expostas e paredes perfuradas em excesso caracterizam dano, especialmente se o contrato exigia reparo na saída.
Pintura amarelada: o inquilino tem que repintar ao sair?
Se o amarelamento é do tempo (anos de contrato, uso normal), é desgaste natural — repintura é custo do proprietário. Se a pintura foi danificada (manchas, rabiscos, cor trocada sem autorização), o inquilino responde. O contrato pode prever devolução com pintura nova, mas cláusulas assim devem ser lidas junto com o estado registrado na entrada.
Mofo é desgaste natural ou dano?
Depende da causa. Mofo por infiltração estrutural (problema do imóvel) é responsabilidade do proprietário. Mofo por falta de ventilação ou vazamento que o inquilino não comunicou tende a ser responsabilidade dele — o dever de comunicar problemas é do morador.
Quem decide o que é desgaste e o que é dano numa disputa?
Primeiro as partes, comparando as vistorias de entrada e saída. Sem acordo, a discussão vai pra mediação ou Justiça, onde as vistorias assinadas e fotos datadas são a principal prova. Sem elas, a decisão tende a favorecer quem não tinha o ônus de provar.
Desgaste natural é o preço do tempo; dano é o preço do descuido. A linha entre os dois só fica nítida quando existe um registro do ponto de partida — e é exatamente isso que a vistoria de entrada faz.